quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

 (Revista Manchete, Novembro, 1964)
A velha Kombi. Combinando sempre. Para sempre!




domingo, 29 de dezembro de 2013

Texto de Rubem Braga


DEZ DIFERENTES INFORMAÇÕES, SUGESTÕES, CONSELHOS E PROFECIAS DE ANO BOM, REFERENTES AOS SERES E OBJETOS CONSTANTES DE UMA FOTOGRAFIA DE YLLEN KERR.

(Revista SENHOR, SR. Dezembro, 1959)

 1         A moça é Cookie, do Arpoador. Tem dono – que, por uma terrível coincidência, não é o vosso cronista. Não tem um lindo rostinho, um lindo palminho de cara. Tem cara mesmo; honesta cara de mulher, de gente. Com um pouco de atenção, é fácil notar que essa moça de corpo fino tem ossos grossos. Isso é bom.  Estrutura sólida. Vai durar muito, e se reproduzir em outras sólidas estruturas para honra e alegria do Arpoador e do Brasil. O seu pescoço revela paciência – e uma inesperada lascívia.

2         Mas isto aqui é uma crônica de Natal, que devemos dizer as coisas que vos desejamos para este fim de ano e para o ano que vem. Cookie não pode ser – mas alguém assim, mulher de manhã de sol, limpa e simples (a sola do pé está suja, porque ela veio da praia descalça; lava-se!), alguém que não ache divino nos dar dor de cabeça à toa.

3        Aquela ave é do mar, e, para nós todos, tudo quanto é ave do mar é gaivota; mas para os homens do mar é um alcatraz. Acompanha os navios em alto mar, até distâncias a que não vai jamais gaivota nenhuma. Sua presença nesta foto indica, para as pessoas nascidas entre 1º de janeiro e 31 de dezembro, viagens distantes, salgadas e felizes. 
               Valente ave do mar, fregata magnificens, ergue teu voo na amplidão, adeus!

4         Uma botelha de uísque não faz mal a ninguém. É o símbolo da amizade, da hospitalidade, do bom papo cordial. As pessoas nascidas sob o signo do Aquário devem esvaziar-se um pouco para não aguar demais a bebida. Por falar nisso toda mocinha de society que ainda não toma uísque on-the-rocks tem a mania de especificar “água natural”, acha isso bonito. Na verdade a água natural do Rio não é nada natural, é uma água trabalhada, que sofre vários enxertos químicos. Escolhi uma boa mineral; mas com são lourenço magnesiana de frasco verde, por favor.

5         Cigarro e fósforos, e livros. Fumai menos, lede mais em 1960. Obrigai vossos amigos a fazer o mesmo, distribuindo entre eles profusamente, como presente de festas, assinaturas anuais de “SR”. Este é um conselho de pai para filho: agradareis muito, e sereis lembrado todo o ano. Fazei o mesmo com vossas amigas, pois as mulheres adoram ler revistas exclusivamente para homens. “SR.” é uma leitura sadia – mas não exageradamente sadia.

6        Aquele peixe desenhado por Yllen Kerr e aquele pote com pincel e lápis tanto pode indicar outra terrível falta de carne na próxima entre-safra como preocupações artísticas. Entrai para sócio do Museu de Arte Moderna de vossa cidade. Tereis várias vantagens – e é bem.

7         Ia me esquecendo dos óculos. Se achardes que a Companhia Telefônica este ano está usando um corpo de letras mais miudinho na sua lista, ou pensardes que a pele de vossa mulher está mais lisinha e mais jovem este ano – tendes o que o vulgo chama de vista cansada. Não fiqueis triste. Com tanta coisa que se viu em 1959 só chega ao fim do ano sem vista cansada um cego ou um débil mental.

8       Ponderação, meus senhores. “Pus você na balança, você não pesou...” diz o Mansueto no samba. Pesai outra vez; todas as coisas tem seu peso, inclusive as imponderáveis, que às vezes são pesadíssimas. E pesai-vos a vós mesmos, para não perder a linha. E pesai os vossos sentimentos e as vossas palavras – pelo mesmo motivo.

9       Mas se vos der a louca, e vos sentirdes naufragar no oceano de vossos erros e de vossos pecados, empunhai aquele revólver. Não é um revólver de matar, é de salvar. Disparai-o para o alto, e ele fará se abrir no céu uma luz colorida e brilhante que pairará sobre o tumultuoso mar desta vida e dirigirá até vós, quem sabe, a alminha irmã salvadora vossa.

10      Entrai, pois, de peito erguido e mente sã, no ano de 1960. Se ele for pior do que 1959, o que parece incrível, mas pode acontecer, consolai-vos com este pensamento: ele pode ser muito melhor do que 1961.

Eia, pois, sus, avante!

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Texto de Rubem Braga


E houve o Natal. Os Bragas jamais cultivaram com muito ardor o Natal; lembro-me que o velho sempre gostava de reunir a gente num jantar, mas a verdade é que sempre faltava um ou outro no dia. Nossas grandes festas eram São João e São Pedro - em São João havia fogueira no quintal, perto do grande pé de fruta-pão, e em São Pedro, padroeiro da cidade, havia uma tremenda batalha naval aérea inesquecível de fogos de artifício. Hoje não há mais nem São João, nem São Pedro, e continua não havendo o Natal. Tomei suco de laranja e fui dormir. A cidade estava insuportável, com milhões de pessoas na rua, os caixeiros exaustos, os preços arbitrários, o comércio, com o perdão da palavra, lavando a égua, se enchendo de dinheiro. Terá nascido Cristo para todo ano dar essa enxurrada de dinheiro aos senhores comerciantes, que já em novembro começam a espreitar o pequenino berço na estrebaria com um olhar cúpido?

Atravessarei o ano na casa fraterna de Vinicius de Moraes. Estaremos com certeza bêbados e melancólicos - mas, em todo caso, meus amigos, se eu não ficar melancólico farei ao menos tudo para ficar bêbado. Como passam anos! Ultimamente têm passado muitos anos. Mas não falemos nisso.

(Do livro UM PÉ DE MILHO. Dezembro, 1945)


(No Cassino Atlântico, em Copacabana, Rio de Janeiro. Da esquerda para a direita, Lauro Escorel, Carlos Jacinto de Barros, Tati de Moraes, Vinicius e Rubem Braga em 1944). Fonte: Nova Antologia Poética. Vinicius de Moraes. Companhia das Letras)

domingo, 22 de dezembro de 2013

Texto de Rubem Braga

"Não sei que lembrança você terá deste vago brasileiro, mas tenho a ilusão de pensar que lhe fará bem saber que muito, muito longe, além do mar, há um homem que esta manhã, na praia de espuma brilhantes, pensou em você, e pensou com ternura"


(Manchete, Rio, março, 1955. Com desenho de Carlos Thiré)

sábado, 21 de dezembro de 2013

Texto de Paulo Mendes Campos

"O relógio da torre Central marcava dez e vinte, e, quando os ponteiros se alinham em reta, uma criatura amada está pensando em nós."
(Manchete, janeiro, 1962)

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Para Rubem Braga



Por Chico Lima Filho

De repente, dou com uma amiga que vai andando distraída. Mexo com ela que, sem se dar conta de quem poderia ser, avança o passo, pois não é de dar bola a qualquer um.
Mas eu insisto, insisto, insisto tanto, até que ela, ao me perceber, abre então aquele sorriso: só podia ser eu!
Aquele sorriso que não durou um mísero instante – pois logo me faria indagação comovida:
- Você já está sabendo? Hesito um pouco:
- Eu sabendo? O quê?
- Jura que não ouviu nada na televisão?
- Jurar o quê, criatura?
- O Rubem Braga, ele morreu.

Podia ser uma brincadeira; como ninguém, minha amiga adora uma brincadeira; queria mexer comigo, sabia muito bem como fazer isso.

Não era, insistiu; foi de madrugada e já estava quase dormindo quando ouviu a notícia. Disse que levou um susto, e não deixou de pensar em mim. Falou logo: “Coitado do Chiquinho!”
- Coitado, por que, menina, não foi o Rubem que morreu? Veio a atenuante da mãe, que também assistia à televisão.
- A senhora não entendeu, é bom explicar: é que o Chiquinho gostava muito dele...

Disse, e não estava exagerando nem um pouco. Estava bastante segura do que falava, a minha amiga.
Aliás, todos que líamos Rubem Braga, ou mesmo relíamos, idolatrávamos com esse fanatismo que só se pode ter para com um velho conhecido; um grande amigo; insubstituível irmão.

Foi só um instante que durou aquele sorriso. Andamos bastante e não falamos mais em nada, a não ser, claro de Rubem Braga. Sim, o Rubem Braga dos passarinhos;
o Rubem Braga da pesca e do mato; o Rubem Braga do mar; e de tantas outras coisas banais. Rubem Braga, sempre Rubem Braga. E era impossível falar em outra coisa.

Rubem Braga, agora, estava morto: de volta, na televisão, a mesma notícia. São 13 horas de uma quinta-feira, e falta muito pouco para o dia de Natal.

Morto. Justamente hoje, quando haverá, logo mais, no final do expediente, uma confraternização de ‘amigo oculto’ aqui do trabalho. Paciência. 
Eu é que não vou. Estou de luto. Meu grande amigo está morto. Entendem? Morto.


 Na foto, Vinicius entre sua irmã Lygia e Rubem Braga em 1959. 
Do livro Nova Antologia Poética. Companhia Das Letras