sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Para Rubem Braga



Por Chico Lima Filho

De repente, dou com uma amiga que vai andando distraída. Mexo com ela que, sem se dar conta de quem poderia ser, avança o passo, pois não é de dar bola a qualquer um.
Mas eu insisto, insisto, insisto tanto, até que ela, ao me perceber, abre então aquele sorriso: só podia ser eu!
Aquele sorriso que não durou um mísero instante – pois logo me faria indagação comovida:
- Você já está sabendo? Hesito um pouco:
- Eu sabendo? O quê?
- Jura que não ouviu nada na televisão?
- Jurar o quê, criatura?
- O Rubem Braga, ele morreu.

Podia ser uma brincadeira; como ninguém, minha amiga adora uma brincadeira; queria mexer comigo, sabia muito bem como fazer isso.

Não era, insistiu; foi de madrugada e já estava quase dormindo quando ouviu a notícia. Disse que levou um susto, e não deixou de pensar em mim. Falou logo: “Coitado do Chiquinho!”
- Coitado, por que, menina, não foi o Rubem que morreu? Veio a atenuante da mãe, que também assistia à televisão.
- A senhora não entendeu, é bom explicar: é que o Chiquinho gostava muito dele...

Disse, e não estava exagerando nem um pouco. Estava bastante segura do que falava, a minha amiga.
Aliás, todos que líamos Rubem Braga, ou mesmo relíamos, idolatrávamos com esse fanatismo que só se pode ter para com um velho conhecido; um grande amigo; insubstituível irmão.

Foi só um instante que durou aquele sorriso. Andamos bastante e não falamos mais em nada, a não ser, claro de Rubem Braga. Sim, o Rubem Braga dos passarinhos;
o Rubem Braga da pesca e do mato; o Rubem Braga do mar; e de tantas outras coisas banais. Rubem Braga, sempre Rubem Braga. E era impossível falar em outra coisa.

Rubem Braga, agora, estava morto: de volta, na televisão, a mesma notícia. São 13 horas de uma quinta-feira, e falta muito pouco para o dia de Natal.

Morto. Justamente hoje, quando haverá, logo mais, no final do expediente, uma confraternização de ‘amigo oculto’ aqui do trabalho. Paciência. 
Eu é que não vou. Estou de luto. Meu grande amigo está morto. Entendem? Morto.


 Na foto, Vinicius entre sua irmã Lygia e Rubem Braga em 1959. 
Do livro Nova Antologia Poética. Companhia Das Letras

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