Por Chico Lima Filho
De repente, dou com uma amiga que vai andando distraída. Mexo com ela
que, sem se dar conta de quem poderia ser, avança o passo, pois não é de dar bola
a qualquer um.
Mas eu insisto, insisto, insisto tanto, até que ela, ao me perceber,
abre então aquele sorriso: só podia ser eu!
Aquele sorriso que não durou um mísero instante – pois logo me faria
indagação comovida:
- Você já está sabendo? Hesito um pouco:
- Eu sabendo? O quê?
- Jura que não ouviu nada na televisão?
- Jurar o quê, criatura?
- O Rubem Braga, ele morreu.
Podia ser uma brincadeira; como ninguém, minha amiga adora uma
brincadeira; queria mexer comigo, sabia muito bem como fazer isso.
Não era, insistiu; foi de madrugada e já estava quase dormindo quando
ouviu a notícia. Disse que levou um susto, e não deixou de pensar em mim. Falou
logo: “Coitado do Chiquinho!”
- Coitado, por que, menina, não foi o Rubem que morreu? Veio a
atenuante da mãe, que também assistia à televisão.
- A senhora não entendeu, é bom explicar: é que o Chiquinho gostava
muito dele...
Disse, e não estava exagerando nem um pouco. Estava bastante segura do
que falava, a minha amiga.
Aliás, todos que líamos Rubem Braga, ou mesmo relíamos, idolatrávamos
com esse fanatismo que só se pode ter para com um velho conhecido; um grande
amigo; insubstituível irmão.
Foi só um instante que durou aquele sorriso. Andamos bastante e não
falamos mais em nada, a não ser, claro de Rubem Braga. Sim, o Rubem Braga dos
passarinhos;
o Rubem Braga da pesca e do mato; o Rubem Braga do mar; e de tantas
outras coisas banais. Rubem Braga, sempre Rubem Braga. E era impossível falar
em outra coisa.
Rubem Braga, agora, estava morto: de volta, na televisão, a mesma
notícia. São 13 horas de uma quinta-feira, e falta muito pouco para o dia de
Natal.
Morto. Justamente hoje, quando haverá, logo mais, no final do
expediente, uma confraternização de ‘amigo oculto’ aqui do trabalho. Paciência.
Eu é que não vou. Estou de luto. Meu grande amigo está morto. Entendem?
Morto.
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Na foto, Vinicius entre sua irmã Lygia e Rubem Braga em 1959.
Do livro Nova Antologia Poética. Companhia Das Letras |

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