terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Texto de Rubem Braga


E houve o Natal. Os Bragas jamais cultivaram com muito ardor o Natal; lembro-me que o velho sempre gostava de reunir a gente num jantar, mas a verdade é que sempre faltava um ou outro no dia. Nossas grandes festas eram São João e São Pedro - em São João havia fogueira no quintal, perto do grande pé de fruta-pão, e em São Pedro, padroeiro da cidade, havia uma tremenda batalha naval aérea inesquecível de fogos de artifício. Hoje não há mais nem São João, nem São Pedro, e continua não havendo o Natal. Tomei suco de laranja e fui dormir. A cidade estava insuportável, com milhões de pessoas na rua, os caixeiros exaustos, os preços arbitrários, o comércio, com o perdão da palavra, lavando a égua, se enchendo de dinheiro. Terá nascido Cristo para todo ano dar essa enxurrada de dinheiro aos senhores comerciantes, que já em novembro começam a espreitar o pequenino berço na estrebaria com um olhar cúpido?

Atravessarei o ano na casa fraterna de Vinicius de Moraes. Estaremos com certeza bêbados e melancólicos - mas, em todo caso, meus amigos, se eu não ficar melancólico farei ao menos tudo para ficar bêbado. Como passam anos! Ultimamente têm passado muitos anos. Mas não falemos nisso.

(Do livro UM PÉ DE MILHO. Dezembro, 1945)


(No Cassino Atlântico, em Copacabana, Rio de Janeiro. Da esquerda para a direita, Lauro Escorel, Carlos Jacinto de Barros, Tati de Moraes, Vinicius e Rubem Braga em 1944). Fonte: Nova Antologia Poética. Vinicius de Moraes. Companhia das Letras)

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