domingo, 29 de dezembro de 2013

Texto de Rubem Braga


DEZ DIFERENTES INFORMAÇÕES, SUGESTÕES, CONSELHOS E PROFECIAS DE ANO BOM, REFERENTES AOS SERES E OBJETOS CONSTANTES DE UMA FOTOGRAFIA DE YLLEN KERR.

(Revista SENHOR, SR. Dezembro, 1959)

 1         A moça é Cookie, do Arpoador. Tem dono – que, por uma terrível coincidência, não é o vosso cronista. Não tem um lindo rostinho, um lindo palminho de cara. Tem cara mesmo; honesta cara de mulher, de gente. Com um pouco de atenção, é fácil notar que essa moça de corpo fino tem ossos grossos. Isso é bom.  Estrutura sólida. Vai durar muito, e se reproduzir em outras sólidas estruturas para honra e alegria do Arpoador e do Brasil. O seu pescoço revela paciência – e uma inesperada lascívia.

2         Mas isto aqui é uma crônica de Natal, que devemos dizer as coisas que vos desejamos para este fim de ano e para o ano que vem. Cookie não pode ser – mas alguém assim, mulher de manhã de sol, limpa e simples (a sola do pé está suja, porque ela veio da praia descalça; lava-se!), alguém que não ache divino nos dar dor de cabeça à toa.

3        Aquela ave é do mar, e, para nós todos, tudo quanto é ave do mar é gaivota; mas para os homens do mar é um alcatraz. Acompanha os navios em alto mar, até distâncias a que não vai jamais gaivota nenhuma. Sua presença nesta foto indica, para as pessoas nascidas entre 1º de janeiro e 31 de dezembro, viagens distantes, salgadas e felizes. 
               Valente ave do mar, fregata magnificens, ergue teu voo na amplidão, adeus!

4         Uma botelha de uísque não faz mal a ninguém. É o símbolo da amizade, da hospitalidade, do bom papo cordial. As pessoas nascidas sob o signo do Aquário devem esvaziar-se um pouco para não aguar demais a bebida. Por falar nisso toda mocinha de society que ainda não toma uísque on-the-rocks tem a mania de especificar “água natural”, acha isso bonito. Na verdade a água natural do Rio não é nada natural, é uma água trabalhada, que sofre vários enxertos químicos. Escolhi uma boa mineral; mas com são lourenço magnesiana de frasco verde, por favor.

5         Cigarro e fósforos, e livros. Fumai menos, lede mais em 1960. Obrigai vossos amigos a fazer o mesmo, distribuindo entre eles profusamente, como presente de festas, assinaturas anuais de “SR”. Este é um conselho de pai para filho: agradareis muito, e sereis lembrado todo o ano. Fazei o mesmo com vossas amigas, pois as mulheres adoram ler revistas exclusivamente para homens. “SR.” é uma leitura sadia – mas não exageradamente sadia.

6        Aquele peixe desenhado por Yllen Kerr e aquele pote com pincel e lápis tanto pode indicar outra terrível falta de carne na próxima entre-safra como preocupações artísticas. Entrai para sócio do Museu de Arte Moderna de vossa cidade. Tereis várias vantagens – e é bem.

7         Ia me esquecendo dos óculos. Se achardes que a Companhia Telefônica este ano está usando um corpo de letras mais miudinho na sua lista, ou pensardes que a pele de vossa mulher está mais lisinha e mais jovem este ano – tendes o que o vulgo chama de vista cansada. Não fiqueis triste. Com tanta coisa que se viu em 1959 só chega ao fim do ano sem vista cansada um cego ou um débil mental.

8       Ponderação, meus senhores. “Pus você na balança, você não pesou...” diz o Mansueto no samba. Pesai outra vez; todas as coisas tem seu peso, inclusive as imponderáveis, que às vezes são pesadíssimas. E pesai-vos a vós mesmos, para não perder a linha. E pesai os vossos sentimentos e as vossas palavras – pelo mesmo motivo.

9       Mas se vos der a louca, e vos sentirdes naufragar no oceano de vossos erros e de vossos pecados, empunhai aquele revólver. Não é um revólver de matar, é de salvar. Disparai-o para o alto, e ele fará se abrir no céu uma luz colorida e brilhante que pairará sobre o tumultuoso mar desta vida e dirigirá até vós, quem sabe, a alminha irmã salvadora vossa.

10      Entrai, pois, de peito erguido e mente sã, no ano de 1960. Se ele for pior do que 1959, o que parece incrível, mas pode acontecer, consolai-vos com este pensamento: ele pode ser muito melhor do que 1961.

Eia, pois, sus, avante!

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